Quarta-feira, 5 de Maio de 2004

Maria:

Já lá vão tantos anos que eu nem sei porque te escrevo hoje, como se pudesses receber esta carta, como se a pudesses ler… Lembras-te como éramos amigas? Tinhas mais cinco anos que eu, eras linda e espalhavas alegria à tua volta. Sempre te invejei um pouco a facilidade com que fazias amigos, o namoro com o João que te adorava, a carreira profissional que se abria à tua frente. Lembro que, no dia em que vieste falar comigo e me pediste para te acompanhar àquela morada, não te entendi. Perguntei-te porque não falavas com o João, disse-te que ele tinha o direito de saber, disse tanta coisa própria da minha inexperiência… Tu só olhaste para mim e, com uma tristeza infinita no olhar, respondeste-me que não tinhas certeza dos teus sentimentos em relação ao João, que não estavas preparada para criar uma criança como sempre tinhas sonhado e que, naquela altura da tua vida, seria o pior que podias fazer a ti própria. Não devo ter percebido completamente (tudo se baralha agora, sabes?), mas acompanhei-te àquele lugar horrível que uma amiga te tinha indicado. Explicaste-me que não tinhas dinheiro de parte e que dizer aos teus pais estava fora de questão. Então, tinha que ser ali mesmo, naquele local onde passei alguns dos piores momentos da minha vida, esperando por ti. Saímos de lá e lembro a tua face branca, sem lágrimas. Não disseste uma palavra. Só soube de ti no dia seguinte quando me telefonaste a dizer que estavas com febre. Não devia ser nada. Passou mais um dia e ,nessa madrugada, a tua mãe ligou-me a dizer que estavas internada no hospital. Corri para lá, Maria e ainda consegui falar contigo. Agarraste a minha mão e só me pediste para tentar que o João te perdoasse e te entendesse. O João chorou muito, revoltou-se, odiou-te pelo que fizeste e por teres partido. E finalmente aquietou-se, como eu.
O João perdoou-te, senão nunca teria conseguido construir uma família equilibrada e ter três filhos. Uma das meninas tem o teu nome. Mas acho que, ao contrário de mim, a quem a experiência de vida fez compreender completamente as tuas razões, ele não entendeu nem vai entender nunca. Para ele a lengalenga será sempre: “Eu amava-a. Podíamos ter sido tão felizes!”. Mas eu sei hoje e tu já sabias então que o amor só não chega, que há outros mundos, outros horizontes. Será que tu falhaste esses horizontes ou partiste para eles, naquela manhã? Como eu queria saber de ti, Maria…
publicado por floreca às 18:16
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6 comentários:
De encandescente a 5 de Maio de 2004 às 22:47
esta carta é tão verddeira que doi. a maria pode ser uma qualquer, qualquer mulher que passe pela dificuldade de ter de escolher. tantas marias... a mesma provação. é comovente a carta. para quem a escreveu parabéns. tocou-me profundamente


De lique/almar a 5 de Maio de 2004 às 21:09
Oi, amigas, desculpem lá ter enviado o post assim sem avisar nem nada. Vamos lá ver com que regularidade isto vai ser! Para já, tenho cá umas ideias... :))***


De floreca a 5 de Maio de 2004 às 20:05
Quantas Marias há por aí? Tantas e tantas!!! Esta lembrou-me uma, em especial...


De floreca a 5 de Maio de 2004 às 20:04
Su, se te quiseres juntar a nós, envia-me o teu endereço de mail, ok? Há sempre espaço para mais uma:-)


De SU a 5 de Maio de 2004 às 19:48
Adorei a ideia deste blogue!Parabéns...Tb tenho imensas cartas...


De Lolita a 5 de Maio de 2004 às 18:20
Um arrepio. Memórias de outras marias amigas mulheres de coragem e amor interrompido que acompanhei a lugares escuros e sombrios...
Obrigada pelo tema da tua carta. Um abraço.


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