Terça-feira, 11 de Maio de 2004

O que ficou?

Como foi possível calar durante tantos anos estas frases que são nada?

Há muito tempo enviei-te uma carta magoada. Dela não guardei cópia, seguiu tal como foi gerada - epístola manuscrita em folhas de caderno com Pierrots impressos em tons de azul. Claro que era minha intenção torná-la mais «respeitável», pelo menos passá-la para folhas A4 e expurgá-la das palavras mais excessivas, mais doridas, aquelas que eu sabia que iriam irritar-te. Mas no final faltou-me a força ou a vontade e seguiu uma carta de amor rasgado ditada por uma alma em sangue.

Outrora, eras para mim tão essencial como o cheiro dos lençóis de linho, bordados, com os quais preparava a nossa cama. Ou como o café saboreado pela manhã. Ou a visão dos jacarandás nas tardes de quase verão. Esperava-te, enlouquecida da urgência de sorver-te com todos os meus sentidos. E tu atrasavas-te tanto...tantas horas te esperei, tantas vezes olhei o espelho, procurei o teu vulto e voltei a aplicar o baton, e tu tardavas...E ali me quedava, eu, perfumada, incandescente de desejo por ti. Eu esperava-te de as mãos geladas...e quando assomavas junto a mim, no espelho redondo, tudo parecia cintilar. Sorria-te e estendia-te a mão. Conduzia-te para o sofá e, saudosa de ti, afagava-te e sentia em cada um beijo teu uma alvorada nossa.

Eu sabia da tua alma nómada, do teu corpo de predador inclemente. Sabia ser para ti destino efémero mas, trémula na minha paixão, cria-me «mulher sofisticada nos sentimentos», apta a cumprir pactos como a canção tão subtilmente desmistifica «então está combinado, é quase nada/ somente sexo e amizade»...Mas eu era fêmea voraz, sôfrega do teu amor, do teu corpo, do teu imaginário... Falámos tanto e tão pouco nos entendemos...

Agora, tantos anos passados guardo o teu olhar travesso, a forma ingénua como acreditavas que, ofertando-me o riso e o esquecimento, poderias tornar-me uma mulher mais segura.

Eras um menino.
Agora a mágoa não existe.
A lembrança é quase límpida.
Passaram tantos anos, vivi paixões várias, descobri o aconchego daquilo que creio ser o “amor maduro”, como te recordo agora?

Depois do adeus?
Depois de um fragmento do todo que eu, ferida, tomei por nada....
Depois do tempo....

Agora já não preciso de reencontrar-te para que vejas como estou feliz.

Agora apenas desejei escrever-te algo que nunca lerás, um derradeiro passo da «dança macabra» em que os nossos encontros se teriam, inevitavelmente, transfigurado se neles tivessemos persistido...

Adeus
publicado por floreca às 15:58
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8 comentários:
De floreca a 12 de Maio de 2004 às 06:51
Como todos nós, Priapo... mas por vezes só nos apercebemos de que não as fizémos já tarde de mais!


De Priapo a 12 de Maio de 2004 às 01:10
Sabes uma coisa Dora? Acho que raramente, ou mesmo nunca, me arrependi das coisas que fiz. Mas tantas e tantas vezes me arrependi já de coisas que NÃO fiz!


De Dora a 12 de Maio de 2004 às 00:44
Obrigada a todos pelo acolhimento :-).
Priapo, se pudesse voltar atrás nas circusntâncias daquele momento remoto, claro que agiria exactamente da mesma forma. Se, ao invés, tivesse as minhas vivências actuais, acho que seria bem menos paciente. Sabes, quanto a mim a paciência é das primeiras "virtudes" que o tempo nos subtrai...


De Kioko a 11 de Maio de 2004 às 23:39
"Sabia ser para ti destino efémero mas, trémula na minha paixão...". Muito bonita a tua carta. Real.


De atuaLolita a 11 de Maio de 2004 às 19:49
Bem vinda Dora ao novo espaço. Tão verdadeira a tua carta, para esses dois ou outros protagonistas. E poder dizer depois de rasgar todas as cartas: "Agora a mágoa não existe", signica a sublimação das paixões.
(a Dora também escreve no "outro belogue aqui ao lado)http://levementerotico.blogs.sapo.pt/


De floreca a 11 de Maio de 2004 às 19:45
Que linda estreia, tão cheia de amores cheios de paixão e de saudade. Bem vinda, Dora:-)


De Priapo a 11 de Maio de 2004 às 18:37


E se pudesses voltar atrás no tempo?

O que teria sido diferente?





De DonBadalo a 11 de Maio de 2004 às 16:26

tudo vale a pena, pois...
bonito texto!
saudades...


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