Quarta-feira, 12 de Maio de 2004

Minha Querida M.

É um pouco estranho estar a escrever-te uma carta ao fim destes anos todos. Vamos em 17 ou 18 anos de casamento? Sabes que sou péssimo para datas. Felizmente ao longo destes anos, nunca precisei de me preocupar com isso, porque tu sempre te lembraste do nosso aniversário, do meu e dos nossos filhos. Até o da minha mãe, que sempre gostou das prendas que tu compraste para eu lhe dar. E do teu aniversário também te lembras sempre, a tua memória é fantástica, e sei que as prendas que compras para eu te dar são sempre do teu agrado.
Dantes escrevia-te cartas e poemas. Quando namorávamos, lembras-te? Não te podes ter esquecido, e com a tua capacidade de organização, na certa que guardaste esses textos que eu escrevia na minha juventude. Éramos tão jovens. Eu tinha tantos sonhos e tu eras tão bonita. Quiseste casar e eu fiz-te a vontade. Quiseste filhos e eu acedi. Era o que toda a gente esperava de nós e cumpriu-se o preceito.

Os filhos.. Gostei imenso da sensação de ver bebés em casa. Meus, lindos, gordinhos e perfumados. Sempre achei que os nossos filhos cheiravam tão bem, a bebé, dizias tu. Depois conheci outros bebés que não cheiravam assim como os nossos, mas a leite azedo. Ainda pensei que os nossos tinham nascido assim, a cheirar bem, mas se calhar eras tu que lhes davas banho e os limpavas e lavavas a sua roupa muitas vezes, e por isso te via sempre cansada ao fim do dia durante a licença de parto.

Os filhos cresceram. Tenho imenso orgulho neles. Nem tu imaginas. Fizeste um óptimo trabalho em procurar as melhores creches e escolas, em manter sempre o contacto com os professores, em conduzires a sua educação, em orientares as suas actividades, em ajudá-los nos trabalhos da escola, em conversar com eles dos temas “difíceis”, em orientá-los na escolha de uma carreira futura. Eu nunca tive tempo para isso, mas sabia que tu eras capaz da tarefa sozinha. Afinal, escolhi-te para mãe dos meus filhos. Foi a melhor prenda que eu lhes podia ter dado, a mãe que lhes dei!

Foste ao longo destes anos a minha amiga, a minha confidente, a minha secretária, a minha colaboradora e sempre confiei nas tuas opiniões. Sabes as horas que passei a contar-te os meus problemas de trabalho, os textos que me reviste, as posições públicas que tomaste por mim, as campanhas que fizeste por mim, os amigos que abandonaste para estar sempre ao meu lado.

Também és uma excelente gestora doméstica. Nunca me preocupei com as contas, com os prazos das letras e hipotecas, até te deixo fazer todas as compras da casa sozinha. Confio tanto em ti.

Mas depois, começaste a chorar, sem razão. Choravas enfiada na cozinha, com a aparelhagem bem alta, ouvindo os teus autores de Jazz Clássico e o teu Piazzolla. Tinhas de perceber, tu uma mulher inteligente, que esse choro não fazia sentido. Tive de ser duro e falar-te à razão. Põe-te boa, M. A família precisa de ti. Optaste, talvez levada em modas, por frequentares terapeutas dos quais sempre duvidei. Isso é para loucos e tu és uma mulher normal. Mas deixei-te ir.

Deixei de te ver chorar, a não ser que o fizesses nas muitas noites em que eu não podia estar em casa. Dormias, sempre que eu chegava a casa, cansado de múltiplas reuniões e da enorme adrenalina de querer mudar o mundo. Dormias, os filhos cheiravam sempre bem, a casa estava arrumada, e eu sabia, pelos ecos sociais, que ias tendo sucesso na tua carreira. Estava tudo bem, minha querida…

O que se passou então para me falares em divórcio neste fim-de-semana? Que ideia louca te passou pela cabeça? Ainda me pareceu um filme, dos que vês quando eu adormeço no sofá, a tua conversa. Como podes dizer que estás vazia de afectos? Como podes dizer que estás morta por dentro? Como me dizes que eu não te conheço? Como podes dizer que eu não faço amor contigo há anos? Ainda nas férias do ano passado…não foi? Não te posso levar a sério. Eu sei que é uma fase, uma coisa da moda, quem sabe o terapeuta novamente?

Escrevo-te só para te dizer:
Volta para casa. Há duas horas que não me atendes o telemóvel e fazes-me falta. Não sei o que há para o jantar.

Teu Marido
publicado por floreca às 21:35
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12 comentários:
De marlia a 13 de Maio de 2004 às 15:10
deixo-te um beijo apenas *


De atua Lolita a 13 de Maio de 2004 às 14:16
Obrigada Dora. Estas personas já escreveram as suas cartas. Vamos ver se aparecem outras do fundo do baú. :-)


De atuaLolita a 13 de Maio de 2004 às 14:12
mimosa, que não fiques solteirão por causa das nossas cartas. :-)
Mas sabes, dos nossos passados fica sempre um azul no fundo do olhar. Um beijo


De Dora a 13 de Maio de 2004 às 10:59
Lolita sou mais uma que ficou atordoada com a densidade da tua carta! Já quase tudo foi dito, não é? Provavelmente também estas "personagens" "já gastaram as palavras pela rua"...Mas sabes, no peculiar "ne me quitte pas" daquele marido vislumbro um desejo, embora muito desajeitadamente formulado, de audácia e redenção. Talvez um dia ele se liberte de algumas malhas e olhe, desassombradamente, a alma da mulher a quem, em tempos, escreveu cartas apaixonadas... Talvez... :'-)


De mimosa a 13 de Maio de 2004 às 10:21
"Sei que sou aquele" como a música...que "abardino" aqui um pouco! Por isso, e se me permitissem, queria transmitir o meu mais fiel comentário:
F-o-d-a--s-e!

Por mais que releia a carta, e fi-lo outra vez antes de comentar, não encontro ponta por onde se lhe pegue de algo que não me seja familiar!
Não porque passasse por nenhum divórico, mas antes por ser o puto que frequentou bons colégios, que andava bem cheiroso porque a minha mãe assim o conseguiu, porque os meus pais sempararam-se cedo ( apesar de longo namoro ) porque a minha mãe era muito à frente para os costumes da época!
Era tão à frente que a melhor imagem que tenho desse esforço, foi uma vez em que por ter deslocado um pé, ela me levou ao colo ( tinha eu 5 ou 6 anos..atenção ) com um braço, o meu irmão pela mão no outro ( tinha 3 anos ) em corrida em direcção ao autocarro, enquanto chovia...até me lembro do azul do blusão que o meu irmão vestia naquele dia!
Ainda me lembro...hoje!

Eles também se lembrarão...os filhos, o tal marido, real ou não, um dia também se vai dar conta! Tomara é que não seja tarde...

VIVAM AS MÃES!

P.s. - É por isso que eu não sei se quero ser "marido", apesar de querer muitíssimo ser pai...


De sofia a 13 de Maio de 2004 às 09:01
O que aconteceu? o que acontece às mulheres; cansaço, querem sentir-se amadas, mulheres. e não só donas de casa, não só mães.


De atuaLolita a 13 de Maio de 2004 às 08:12
Esta carta deveria ter uma nota. "Isto é pura ficção. Qualquer semelhança com a realidade será uma mera coincidência" Uma piscadela de olho e um abraço muito grande para todas vós. Obrigada.


De MWoman a 13 de Maio de 2004 às 00:37
Alguém adormeceu e não foi no sofá e nem se deu conta disso! Tão familiar que tudo isto me parece...


De Kioko a 12 de Maio de 2004 às 23:51
Agora é a minha vez: xiça penico! Este foi um suspiro mesmo muito fundo.


De floreca a 12 de Maio de 2004 às 23:36
Lolita, também eu me revejo nesta carta... será que as vidas são assim tão parecidas? Sabemos ser tão bem mulheres e mães... mas esquecemo-nos de sermos nós... ou não temos tempo para isso... Gostei muito (para variar... ehehe)


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