Sexta-feira, 4 de Junho de 2004

Duas cartas ainda mais surreais...

Carta nº 1:




Olá miúda

Porque não acredito que o poema tenha sido escrito para mim, e porque vives de afectos e eu afeiçoo-me com facilidade, porque tens vontade de engolir o mundo e eu de ser engolido por ele, porque consegues vislumbrar a minha alma e eu não sei sequer se tenho disso, por tanta coisa, que não me apetece estar a explicar nada!

Pausa para olhar para a lua e tentar encontrar alguma inspiração!

Achas normal? Achas natural que me sinta como se sente um miúdo de 10 anos que ganhou uma “playsation” nova e agora só quer aquilo? Já não sou um garoto, já tenho idade mais do que suficiente para me conter e atenuar estes desassossegos que me andas a provocar! E o pior de tudo é que te curto à brava! Já dou por mim a pensar em ti variadíssimas vezes ao dia! E à noite também, ainda agora que olhei para a lua me recordei do teu: -“Sexta-feira é um dia redondo. Perfeito, como a lua cheia.” Curioso… Pareceu-me ver lá desenhada a tua face!!! Estarei apaixonado? Poderei engravidar-te se te mandar muitos mails? Será altura de te apresentar aos meus pais? Estarei a descarrilar? Será sono, serás gente? Serás tu que estás lá em cima na lua? Serás tu o fenómeno que vi na noite passada nos céus? Será que demora a passar o efeito da cola? Será que o tabaco vai chegar até acabar de te escrever? Será que estes senhores simpáticos de branco vestidos que estão ali à porta me vão deixar acabar isto? Será que não estás cansada de ler parvoíces?

O gajo do andar de cima

Carta nº 2

Meu querido vizinho

Aprendi que a amizade é como uma flor que eu tenho num vaso em forma de bolbo em minha casa há alguns anos. Dá flor apenas uma vez por ano, uma flor vermelha lindíssima e que dura apenas uma semana. Amo aquela flor de uma forma intensa. E sei que ela está lá, mesmo que a dormir na terra durante todas as outras semanas do ano.
Durante a semana em que a flor está viçosa, ponho o vaso bem à minha vista e olho para ela todo o tempo em que estou em casa. Até lhe faço festas e dou-lhe sorrisos. Ela sabe que eu existo e eu sei que ela existe. Mas não pedimos nada uma à outra, eu não lhe ponho adubo, ela dura o tempo que lhe apetece.

Acabei de definir Amizade. Coisa estranha, esta ideia saiu agora, para ti.

A Vizinha das varandas floridas.

publicado por floreca às 20:37
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7 comentários:
De DonBadalo a 5 de Junho de 2004 às 00:22

que raio! será que o elevador avariou?!


De ognid a 4 de Junho de 2004 às 23:48
Tenho de começar a comentar mais cedo para não repetir os outros :)) também gosto da tua concepção de amizade - é bonita e quando é assim é verdadeira. O "gajo do andar de cima é impagável" - dava um personagem de teatro. Beijo.


De atuaLolita a 4 de Junho de 2004 às 23:16
:-) Dora. Eu também gosto destas personagens. São luminosas.


De Dora a 4 de Junho de 2004 às 23:13
Que cartas deliciosas! O "gajo do andar de cima" tem um humor e uma tenura que me lembraram o Chico Buarque e a "vizinha das varandas floridas" formula uma definição de amizade evocativa de Saint-Exuperry mas enaltecendo a liberdade...Obrigada por nos trazeres estas personagens lindas :-)


De atuaLolita a 4 de Junho de 2004 às 23:12

“Surreal, que se forma no surrealismo, movimento artístico, poético e literário, pertencente à dialéctica do real e do imaginário.” A Fronteira ente o real e o surreal está na capacidade de tornarmos um desejo onírico numa realidade, ou de tornarmos o real num sonho desejado.


De almar a 4 de Junho de 2004 às 21:08
A mim estas cartas pareceram-me plausíveis, prováveis, surreais só se na forma. A tua definição de amizade é algo que vou reter porque acho verdadeiramente... bela! Beijinhos


De floreca a 4 de Junho de 2004 às 21:01
Mais surreais? Bem reais, acho eu!!! Gostei da definição de amizade, gostei de ver a cara na lua... Gosto de te ler:-)


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