Quarta-feira, 9 de Junho de 2004

La bohème

Minha amiga,


Tenho estado muito ausente. E tu, deste pela minha falta!...


É como se estivesse também ausente de mim. Só me apetece estar rodeada de nada, sem falar, sem conversar, nada! Fechar os olhos e ficar no silêncio.


Há momentos assim, servem de pausa. E eu... estou exausta! Verdadeiramente cansada de tudo e de todos... mortificada por esta luta interminável da sobrevivência diária, martirizada pela angústia dos dias que se seguem, pré-ocupada em problemas que ainda não chegaram.... De tal maneira que, de cada vez que me surge um obstáculo, ele tem a dimensão de um Adamastor e caio sob o peso do fantasma...


Tenho feito um esforço, mas a vontade não vem. Desapareceu o entusiasmo. Fugiu-me a cor dos lábios e o brilho dos olhos. Sinto um vazio "aqui" dentro. Esta, que te escreve, já não sou eu, diria Bocage, se tivesse nascido mulher.


Como é que te hei-de explicar isto?!


É como se a vida, de repente, perdesse o significado que tinha, e tem outro, mas não o consigo definir. Eu, eu que tu conheces, eu perdi o "meu significado".


Parece que nos últimos dias já me vou sentindo melhor, apesar de tudo. "Melhor", quer dizer: se estivéssemos a falar de uma doença, diria que a febre baixou e o apetite pelas coisas mundanas quer despontar. Mas é tão fraquinho...... E sinto-me tão pálida!


A vida será assim, pálida e tão cheia de nada e tão perdida de tudo?


Vê lá tu que um dia destes peguei no carro e meti-me à estrada, a conduzir sem destino, com as janelas abertas e o vento a bater-me nos olhos. Quando dei por mim, estava a ouvir La bohème, de Aznavour.


Meus Deus, senti-me tão.. tão... fly-away...! Tão esvoaçante, na estrada, a dançar sozinha e descalça, La bohème, La bohème, ... totalmente sozinha e descalça na estrada... e rodopiava, rodopiava.... La bohème....


O pior, amiga, o pior é que umas lágrimas magoadas saltarem-me cá para fora, voaram com o vento, e foi quando eu percebi que tinha envelhecido. Foi quando vi que a vida passara, e passa, sob as rodas do meu carro, e não vai para além da estrada... esta estrada que hoje escolho, que ontem escolhi, e que pode não ser o melhor caminho...


Sabes, isto não é adolescência, e ainda é cedo para ser menopausa, então o que será???


Para terminar, queria dizer-te que gostei imenso daquela tua imagem: "quem ama, protege", a propósito da flor. É totalmente verdade.


Tenho-te visitado, embora não me vejas.


Obrigada pelo teu apoio. Conta sempre comigo também.


Até breve, com um sorriso.


Fly-away
publicado por floreca às 17:54
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16 comentários:
De Priapo a 13 de Junho de 2004 às 03:03


É, não é?..... :)


De atuaLolita a 12 de Junho de 2004 às 20:45
fly-away, o Priapo é um must!


De Dora a 12 de Junho de 2004 às 12:59
Esses momentos em que nos apetece fazer zapping de nós próprios e as nossas almas, toldadas de espanto, não reconhecem os seus murmúrios, são, geralmente prenúncios de um renascimento. E no teu caso é ao som de Aznavour :-). Um beijinho.


De Fly-away a 12 de Junho de 2004 às 10:18
Depende... És simpático ?...


De Priapo a 12 de Junho de 2004 às 01:29


Se isso significar "La Bohème", também posso ir...?


De laurinha a 11 de Junho de 2004 às 11:46
fly-away, vamos mas é às sardinhas um dia destes, beber uma sangria, e riiir ;***


De atuaLolita a 10 de Junho de 2004 às 23:23
Não sou a esvoaçante. Sou apenas eu. Estranhos e dúbios os circuitos de comunicação
Embora os percorra como caminhante ou navegante, ou carteira....


De Flay-away a 10 de Junho de 2004 às 23:00
Não imaginas o sabor da estrada nos pés descalços... Fallait-il que l'on s'aime Et qu'on aime la vie...


De Priapo a 10 de Junho de 2004 às 21:37



Simplesmente te imaginei: « Tão esvoaçante, na estrada, a dançar sozinha e descalça, La bohème, La bohème, ... totalmente sozinha e descalça na estrada... e rodopiava, rodopiava.... La bohème....»...


De floreca a 10 de Junho de 2004 às 07:42
E eu gosto imenso de música francesa. Foi a música da minha adolescência e juventude... Menina Fly-Away, ontem não te consegui responder... quando li isto, fiquei com lágrimas nos olhos e sem palavras. Por várias razões: por ver que não estás bem, por me reconhecer nas tuas palavras... e por sentir a tua amizade. E, talvez, porque ontem foi um dia particularmente difícil para mim... Mereces uma resposta mais "a sério", tal como também prometi à Lolita... mas a verdade é que, também eu, me sinto "ausente de mim"... e não tenho conseguido escrever. Mas ela vai aparecer... Entretanto, sabes tudo aquilo que já te disse... Um beijo grande para ti:-)


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