Quarta-feira, 21 de Julho de 2004

A carta possível...

Mãe, estou tão só como da última vez que te escrevi. Talvez mais. A solidão é uma coisa rude que se adensa só de pensarmos nela. E nestes meses pouco mais tenho feito que pensar.
Quanto tempo passou desde a última carta? Um ano, ou mais, já nem sei. Deixei de contar os dias. Agora conto apenas as lágrimas. Sim, mãe, é possível contar as lágrimas. Tão possível como os grãos de areia. Basta reduzir a praia a um dedal. Basta não chorar todos os dias, mas apenas quando a dor é insuportável. Pois, tens razão, a minha dor é insuportável, mas tornei-me madeira, estou seco e já não sinto.
Lembraste do berço que nos ofereceste? Esse mesmo. Aquele com o nome da tua neta gravado. Durante a noite embalo-o, canto o papão, e a minha voz disfarça o ranger das tábuas com falta de uso. O berço continua vazio, mãe. O berço esteve sempre vazio. A minha filha nunca chegou a nascer. A minha mulher, a mulher que eu amei, levou-a na barriga. A casa está cheia de ecos, e olha que eu não falo durante todo o dia. São ecos absurdos de um tempo que parou.
Não sei se voltarei a escrever, mãe. Quem sabe se, no dia em que me leres, estas linhas não serão o que resta da minha voz, o que resta de mim. Mas não sofras, mãe, não chores. Inúteis são as lágrimas que não se podem contar.
publicado por floreca às 00:34
link do post | comentar | favorito
16 comentários:
De Rui Guerreiro a 21 de Julho de 2004 às 14:23
floreca: Sim! :) Felizmente é (quase) tudo ficcional. Beijo.


De atuaLolita a 21 de Julho de 2004 às 14:16
Gosto da imagem das lágrimas contáveis. Texto muito bom e um novo personagem com densidade psicológica. Sublinhei: "é possível contar as lágrimas. Tão possível como os grãos de areia. Basta reduzir a praia a um dedal." Um beijo grande :-)


De MARTA TEIXEIRA a 21 de Julho de 2004 às 13:51
É, o tempo pode tornar-se pesado, duro demais!!!
Gostei e realmente não há mais a dizer do que isso.
Um abraço
Marta


De Betty a 21 de Julho de 2004 às 12:42
Ecos de dor... Gostei apesar da tristeza :)


De wind a 21 de Julho de 2004 às 01:09
Caramba esta carta emocionou mesmo! Pode ser ficção o que escreveste, mas há casos reais. E a maneira como está escrito, prende do princípio ao fim. És genial. Aqui neste blog já li várias cartas tuas e todas diferentes. Mas sempre a prenderem a atenção e emocionantes. Parabéns. É uma benção escrever assim:)PS: Fiz um testamento à tua conta, vem a calhar com a carta:-)


De floreca a 21 de Julho de 2004 às 01:02
Isto até custa a ler, Rui!!! Não pela escrita, mas pelo nó com que fiquei na garganta... espero, sinceramente, que seja apenas fruto da tua imaginação!!


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.posts recentes

. Actualizar...

. Lá terá de ser...

. Estamos de volta

. Cumprir calendário...

. Pausa

. Mais uma mudança

. SORTE OU NÃO

. Postais ilustrados - 4

. Esta carta é dirigida aos...

. MIMO

.arquivos

. Maio 2006

. Fevereiro 2006

. Dezembro 2005

. Setembro 2005

. Dezembro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds