Sexta-feira, 7 de Maio de 2004

Querida mãe:

Escrevo-lhe para lhe dizer que tudo está a correr bem por aqui. Não se aborreça por não a deixarem vir visitar-me. O doutor explicou-me que era por pouco tempo. Sabe bem que, quando aqui entrei, estava muito mal. Agora já me sinto melhor mas, quando eu sair daqui, vai ser tudo muito diferente. Não vou continuar a forçar-me para fazer o que o pai e a mãe querem. Tenho que lhe dizer isto, mãe, para estar preparada.
O doutor está a ajudar-me a gostar de mim como eu sou. A mãe sabe, sempre soube. Lembra-se quando eu brincava com os meus Action Man e lhe dizia que aquelas fardas eram feias? Lembra-se de eu ter desenhado e ter tentado fazer fardas diferentes para eles usarem? Eram tão mais belas… A mãe aborreceu-se, tirou-me os bonecos da mão. Na altura, não percebi porquê. O pai sempre disse que eu chorava por tudo e por nada, que parecia uma menina. Dava-me encontrões e dizia: “És um homem, porta-te como um homem!” A mãe ainda se lembra das vezes que voltei a chorar da escola? Os meus colegas chamavam-me coisas horríveis só porque eu não tinha as mesmas conversas que eles e não andava atrás das raparigas. Talvez o que eu escrevia e lia nas aulas e os meus desenhos também os incomodassem, não sei! Eu não entendia, mãe, eu queria ser igual aos outros. Como podia eu perceber o que me fazia sentir, ao mesmo tempo, tão mal e tão bem quando, no balneário, olhava os corpos nus dos meus colegas?
Com os namoros eu tentei, sabe que eu tentei! Queria tanto que a mãe e o pai se orgulhassem de mim! Comecei a namorar a Rosa, lembra-se? Coitada, ficou tão zangada comigo! Eu só sirvo para tornar os outros infelizes. Não, o doutor diz que eu não devo dizer isto! Não posso voltar àquela tristeza sem fim, àquela horrível depressão que me trouxe até aqui.
Agora, mãe, eu sei o que se passa comigo. Nem o seu desgosto nem o desprezo do pai me vão impedir de ter a minha vida e procurar ser feliz. Tenho o direito de amar e ser amado, mãe!
Adeus, espero poder vê-la em breve. O pai, já sei que não vem. Um beijo do seu filho
Mário
publicado por floreca às 11:45
link do post | comentar | favorito
|
2 comentários:
De Kioko a 7 de Maio de 2004 às 14:32
Muito pertinente, esta carta. Um tema a precisar de ser reflectido por cada um de nós, com muito carinho.


De Lolita a 7 de Maio de 2004 às 12:22
Um soco na boca do estômago. Comovente. Dói sempre o sofrimento da solidão. E por vezes tão desnecessária.
Excelente, esta carta. Um abraço para ti


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Maio 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6

7
8
9
10
11
12
13

14
15
16
17
18
19
20

21
22
23
24
25
26
27

28
29
30
31


.posts recentes

. Actualizar...

. Lá terá de ser...

. Estamos de volta

. Cumprir calendário...

. Pausa

. Mais uma mudança

. SORTE OU NÃO

. Postais ilustrados - 4

. Esta carta é dirigida aos...

. MIMO

.arquivos

. Maio 2006

. Fevereiro 2006

. Dezembro 2005

. Setembro 2005

. Dezembro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds