Quinta-feira, 20 de Maio de 2004

Carta para o Mané ou o despertar do desejo

Como não cheguei a responder à tua última carta (há quê ...trinta e alguns anos?) ,vou dizer-te hoje o que nunca te disse nessa altura. Eu teria dezassete anos e estava em férias. Sem namoro oficial, tinha tido um namorico que me deixara uma dúvida grande sobre a minha capacidade de ter algum prazer com aquelas carícias parvas e beijos sem gosto dos rapazes da minha idade. Tu estavas por ali, naquela terra ao sul com 27 igrejas, a cumprir serviço militar. Encontrámo-nos por acaso, sentados em bancos de jardim em frente um do outro.
Lembras-te da primeira tentativa de conversa de engate, seguida de uma lógica tampa ? E ainda te recordas do que conversámos depois?. Eras bem mais velho que eu (vinte e quantos?) e falaste dos azares da vida que te faziam estar ali e não numa escola de oficiais, da tua terra-mãe Angola, das saudades. Eu devo ter falado das parvoíces que uma miúda daquela idade tem para dizer, as férias, os primos, a universidade para onde ia entrar… Mas eu já só conseguia olhar a tua nuca e as tuas mãos, a tua cor mestiça.
Encontrámo-nos algumas vezes nas noites algarvias, junto ao rio. Tu trazias a viola e cantavas. Lembro-me tão bem daquela velha canção brasileira, O Trem das Onze:

“Não posso ficar nem mais um minuto com você
Sinto muito, amor, mas não pode ser
Moro em Jaçanã
Se eu perder esse trem
que sai agora às onze horas
Só amanhã de manhã
E além disso, mulher, tem outra coisa
Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar
Sou filho único
tenho minha casa pra morar”

Era a canção da despedida e eu ficava sempre um pouco tonta, naquela vontade de ir contigo, sei lá para onde…
Encontrámo-nos na praia num fim de semana e o olhar do teu corpo moreno deu-me a certeza de que era ali que eu me queria perder e encontrar, sem mais delongas. Mas tu só disseste:”És uma miúda. Eu tenho uma vida muito complicada”. Deixaste-me vir embora, para Lisboa, onde ainda te vi duas ou três vezes para te contar que tinha entrado para a universidade e tinha arranjado um namorado que colheu os frutos do desejo que tu acordaste. E a pouco e pouco afastámo-nos… Só te escrevo para que saibas que, na verdade, foste tu que me fizeste mulher.
publicado por floreca às 19:32
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6 comentários:
De almar a 27 de Maio de 2004 às 15:44
aRMAS: Não era difícil de adivinhar...:)*


De aRMAS a 25 de Maio de 2004 às 11:32
Tavira e o seu Rio Gilão.


De almar a 21 de Maio de 2004 às 12:10
É verdade, Lolita, e por vezes quando descobrimos o que devíamos ter dito já é tarde de mais. Beijinho


De almar a 21 de Maio de 2004 às 12:08
Dora: por vezes só muito mais tarde nós temos noção do que foi importante na nossa descoberta do desejo. Foi pensando um pouco nisso que esta carta apareceu. Beijinho


De atuaLolita a 21 de Maio de 2004 às 11:42
é estranho como vivemos vidas inteiras, gastamos tantas palavras e por vezes nunca dizemos o que realmente é importante. agora eu li esta carta. e fiquei mais rica como pessoa. um beijo. :-)


De Dora a 21 de Maio de 2004 às 01:36
almar4, que comovente este teu "Esplendor na relva" despojado de amargura! Evocamos arrepios adolescentes e tempos de inocência, em que o suão perturbava a tranqulidade das almas jovens em descoberta dos corpos... Um beijinho para ti :-)


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